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“Vamos pagar a fatura em casos e mortalidade”

Atualizado a 12 julho 2021

O impacto da pandemia no diagnóstico  

Avalancha. Foi a palavra mais utilizada na reunião digital que marcou o segundo encontro de curadores do “Tenho Cancro. E Depois?” — projeto de Expresso e SIC Notícias que conta com o apoio da Médis e da Novartis, além da colaboração da Liga Portuguesa contra o Cancro e da Sociedade Portuguesa de Oncologia — para descrever o aumento súbito de casos e doentes que começam a aparecer nos serviços de saúde, muitos deles em estado já muito avançado. E o impacto já se começa a sentir.

As estimativas apontam para menos 100 mil diagnósticos de cancro e menos 400 mil rastreios realizados em 2020, e o impacto dos atrasos vai sentir-se nos próximos três a cinco anos, numa série de indicadores, apesar de a oncologia já estar a sentir na pele o impacto da pandemia. “Este tempo que estamos a perder é dificilmente recuperável, quanto mais tempo perdermos, mais portugueses são afetados”, avisa Fátima Cardoso. A diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud revela que no ano passado foi notório o “aparecimento de cancros muito avançados”, com pessoas a manifestar sintomas no início da pandemia e que “só conseguiram fazer exames em setembro, outubro”. Para se ter uma ideia, se o cancro da mama for “diagnosticado precocemente, a taxa de cura chega a 70%. Já “em fase avançada é incurável e tem uma sobrevivência média de três anos”. Por isso, a médica não tem dúvidas: “Vamos pagar a fatura em casos e mortalidade.”

Só no Hospital de Santa Maria, por exemplo, houve um aumento de 40% de casos de cancro da mama em estado avançado e, para Fátima Cardoso, é evidente que os rastreios não só “têm de voltar à normalidade” como têm que atingir rapidamente “uma cobertura maior para compensar o tempo que não estiveram em funcionamento”. A organização dos três rastreios previstos no Programa Nacional de Doenças Oncológicas — cancro da mama, do colo do útero e colorretal — é alvo de críticas, com José Dinis, coordenador do programa, a afirmar que costuma dizer “que temos 15 rastreios”, ou seja, cada uma das cinco administrações regionais de saúde conduz os três rastreios como entende.

Falta coordenação e uma política uniforme que promova uma resposta unificada para os atrasos que se avolumaram. As dificuldades foram (e são) críticas mas o médico no IPO do Porto defende que o SNS “respondeu muito bem” com a “oncologia portuguesa a mostrar uma capacidade quase inesperada” e os rastreios a darem “uma grande volta”. O que, tudo pesado, “não chega para o que nós precisamos” nos rastreios, admite.

Pressão sobre cuidados

A dificuldade de acesso aos centros de saúde e aos médicos de família que ainda se verifica é apontada como um dos principais fatores que dificultam o diagnóstico, com efeitos semelhantes a uma bola de neve na referenciação e tratamento. “A má gestão dos recursos, nomeadamente humanos, a pressão sobre os cuidados de saúde primários, sobre os hospitais, depois de um ano e quase quatro meses após o início da pandemia, deveria ter sido acautelada pelos responsáveis”, aponta Isabel Galriça Neto, diretora da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz. Questões que resultam no “agravamento da qualidade de vida e do apoio aos doentes oncológicos”.

Antes de 2020, os cancros digestivos provocavam 12 mortes por dia. “Hoje mais”, realça Vítor Neves. O presidente da Portugal Europacolon revela que, já antes da pandemia, a adesão aos rastreios era muito baixa, na ordem dos 30%, o que salta à vista quando uma “taxa boa é à volta de 70%”. “O rastreio”, explica, “é uma forma de salvar a vida e poupar dinheiro” e deve ser complementado com a reabertura urgente “dos espaços do centro de saúde para as consultas normais onde os utentes podem evidenciar os seus sintomas e serem referenciados para as consultas da especialidade”. Vítor Neves acredita que é necessária uma reorganização do sistema que dote as unidades de saúde primária de “outros apoios ambulatórios, que são completamente possíveis, para libertar espaço”.

Oportunidade única

Transformação é o que o Plano Europeu de Luta contra o Cancro promete. Após anos de discussão, o projeto da União Europeia viu finalmente a luz do dia e é visto como um instrumento que pode mudar a face da oncologia, com a ambição de salvar três milhões de vida até 2030. “É uma oportunidade de ouro”, resume Fátima Cardoso, se Portugal a souber utilizar. “Temos de providenciar os meios para que as decisões sejam cumpridas”, sob pena de, como tantas vezes já aconteceu, estarmos perante “bons planos, sem condições para os implementar”. José Dinis defende que será “a nossa capacidade de nos organizarmos como Estado e como sociedade civil” que resultará em projetos estruturados e sólidos para chegar aos fundos europeus e beneficiar daquilo que podem significar na luta contra uma emergência oncológica que não dá mostras de tréguas. “A pandemia trouxe-nos evidência de fragilidades”, justifica Vítor Neves, e estes financiamentos devem ser aplicados para “reorganizar e dotar o nosso SNS do que os doentes precisam”. E lidar com os efeitos da avalanche.

Emergências da oncologia

Rastreios

Recuperação. A pandemia da covid-19 provocou uma enorme disrupção nos serviços de saúde e prejudicou os rastreios de novos cancros. “Estamos cada vez mais a remediar”, assinala Tamara Hussong Milagre, presidente da associação EVITA, em vez de “apostar na prevenção”. 1,2 milhões de consultas e mais de 150 mil cirurgias ficaram por fazer em 2020 e, por exemplo, um em cada cinco melanomas ficou por diagnosticar.

Sobrevivência

Impacto. O défice nos diagnósticos tem como principal resultado o aparecimento de cancros em fase mais avançada e a diminuição da qualidade de vida. Um estudo do IPO do Porto, registou uma quebra de cerca de 40% de casos na instituição e verificou, entre os tumores com pior prognóstico, um risco 50% maior de morte.

Reorganização

Mudança. “Precisamos de um Plano Marshall de recuperação”, diz Vítor Rodrigues, presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro. Com os seus €4 mil milhões de dotação orçamental, o Plano de Europeu de Luta contra o Cancro, pode ser a resposta, mas exige coordenação.

O que se segue

O projeto “Tenho Cancro. E Depois?” encontra-se na segunda edição e tem desenvolvido uma atividade intensa para traçar um retrato o mais completo possível do panorama oncológico português e das dificuldades que enfrenta.
Após a segunda reunião de curadores e até ao final deste ano podemos esperar mais dois encontros digitais de curadores (22 de setembro e 15 de dezembro), que vão servir para delinear a evolução da situação em Portugal e as respostas que estão a ser dadas, assim como uma série de reportagens e um debate a ser emitido na antena da SIC Notícias.
Ao longo do ano haverá também mais oportunidades para assistir às rubricas “Check-Up Seguro” e “Vamos Falar?”, dedicadas a um cancro específico e a uma faceta exclusiva da luta contra o cancro, respetivamente, e com cobertura contínua no site www.tenhocancroedepois.pt. Sem esquecer o acompanhamento nas páginas do Expresso.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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