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Um doutoramento e dois prémios entre dois cancros

Atualizado a 22 abril 2019

“Não está a fazer o doutoramento? Aproveite e escreva.”

Havia uma única janela iluminada que se avistava, de madrugada, naquele prédio alto e moderno de uma avenida de Lisboa. Era a janela do apartamento de Virgínia Baptista, que, durante o tratamento do segundo cancro da mama, mergulhou na escrita da sua tese de doutoramento.

A cortisona que tomava enquanto fazia quimioterapia, tirava-lhe o sono. A partir das quatro da manhã, não conseguia dormir mais. Queixou-se à médica. E ela sugeriu-lhe: “Não está a fazer o doutoramento? Aproveite e escreva.”

Virgínia seguiu a recomendação. Acordava e “atirava-se” à escrita. Escreveu muitos milhares de carateres no silêncio da madrugada.

Estava em tratamento de um cancro na mama, no Instituto Português de Oncologia (IPO). O incómodo de um quisto, interrompera-lhe a concentração no seu trabalho de investigação e, simultaneamente, de professora de história.

Os exames médicos confirmaram a suspeita de um tumor maligno na mama.

Foi-lhe retirado o útero quando planeava ter filhos. Vinte anos depois, um segundo cancro, desta vez na mama.

Era o segundo cancro que enfrentava. O primeiro, fora diagnosticado quando tinha 35 anos. A médica comunicou-lhe então que, para ficar bem, teria de retirar o útero. Virgínia planeara ter filhos, mas tinha de pôr essa ideia de parte. “Foi um choque, não estava preparada para aquela notícia, chorei muito”, conta. “Foi uma experiência que, em muitos aspetos, preferi viver sozinha porque são coisas que se vivem, difíceis de partilhar.”

Foi operada no IPO. Apesar do ambiente “carregado”, sempre se viu rodeada de afeto e se sentiu acompanhada pelos profissionais de saúde e isso “foi fundamental para manter a esperança.”

Dois anos depois, adotou uma criança, já depois de se divorciar, e a sua vida ganhou uma nova alegria.

A notícia de um novo cancro, agora na mama, 20 anos depois do primeiro, trouxe-lhe desinquietação e muito medo. “Pensei várias vezes na morte, que isso podia acontecer e tinha medo, claro.”

Desta vez, foi preciso fazer radioterapia e quimioterapia, sessões de duas horas de duas em duas semanas. No meio, teve de ser internada, devido a infeções. “Pedi às pessoas para não chorarem à minha frente.”

O apoio de um grupo de voluntárias do IPO, algumas das quais tinham passado por processos semelhantes e com quem partilhou informação, foi “muito importante”, diz. “Sente-se que são pessoas que sabem do que estamos a falar porque passaram pelo mesmo e isso ajudou-me imenso.”

Virgínia Baptista ganhou à doença, enfrentando-a com a dedicação a uma tese de doutoramento sobre os Direitos das Mulheres Trabalhadoras em Portugal, que lhe valeu dois importantes prémios: o Prémio António Silva Leal, em 2015, e o Prémio Maria Lamas, em 2016.

Passaram seis anos desde o diagnóstico e já teve alta do período de vigilância.

A todos os que sofrem de cancro, ela recomenda: “Confiança nos médicos, prevenção e atenção. Apanhei tudo no início e isso foi determinante.

 

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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