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Novo estudo para "atacar" o cancro a partir da assinatura genética

Atualizado a 20 maio 2019

Nuno Barbosa Morais, Instituto de Medicina Molecular

Um estudo de investigadores portugueses liderado por Nuno Barbosa Morais, do Instituto de Medicina Molecular, vai contribuir para identificar mais "fraquezas" do cancro, através da "assinatura genética" e "atacá-lo" com terapias mais eficazes.

Publicada em março passado na revista científica PLoS Computational Biology, esta investigação e os seus objetivos são explicados por Barbosa Morais.

"O centrossoma é um organelo presente em todas as células animais que é fundamental em diversos processos celulares, como a divisão, a migração e a comunicação entre células", explica. "Há mais de um século que se propôs que o aumento anormal do número destas estruturas poderia induzir cancro e, desde então, o aumento do número de centrossomas é visto como uma das 'impressões digitais' do cancro, sendo alvo da atenção dos cientistas."

As dificuldades técnicas em caracterizar esta anormalidade em amostras de doentes têm, no entanto, impedido que o seu potencial clínico seja explorado em larga escala. "Para as contornar, utilizámos a expressão de genes que se sabem causar aquele aumento e analisámos computacionalmente a sua incidência em milhares de tumores de diferentes tipos de cancro e em amostras de tecidos normais dos mesmos doentes", esclarece Nuno Barbosa Morais.

"Os resultados das nossas análises revelaram que esta assinatura está presente apenas nas amostras tumorais e que é mais prevalente nas formas mais agressivas de vários tipos de cancro. Utilizando dados de sensibilidade a fármacos, identificámos também compostos seletivos para células com esta anormalidade que poderão ser explorados especificamente contra as células cancerígenas, não afetando as células saudáveis dos doentes."

Perceber melhor as causas e consequências moleculares do aumento anormal do número de centrossomas nas nossas células, revelar as suas "assinaturas" mais úteis para prognóstico e identificar alvos terapêuticos e drogas respetivas, são os objetivos desta investigação.

Mas o que tem de inovador? "A recente evolução das tecnologias de sequenciação permitiu a criação, por parte de grandes consórcios internacionais, de bases de dados com a caracterização, aos níveis da sua sequência de ADN e da expressão dos genes, de milhares de tumores de dezenas de tipos de cancro para cujos doentes também está disponível informação clínica", explica Nuno Barbosa Morais referindo que um aspeto inovador do trabalho que a equipa desenvolveu "foi a utilização de abordagens computacionais para a integração de todos esses dados", que "permitiu identificar associações entre a elevada expressão dos genes causadores do aumento do número de centrossomas e a menor sobrevivência dos doentes em diferentes tipos de cancro, a prevalência de mutações noutros genes ou manifestações de atividade do sistema imunitário".

O outro aspeto inovador consistiu no facto de os investigadores terem "combinado dados de (in)tolerância de células humanas a fármacos com dados das alterações a expressão dos genes induzidas pelos fármacos nas células". Esta abordagem permitiu-lhes "selecionar compostos com o potencial de matar seletivamente as células com maior expressão dos genes associados a mais centrossomas e de, complementarmente, reduzir a expressão desses genes nas células que resistirem".

Este estudo traz vantagens para o prognóstico e tratamento do cancro: "Medir a expressão dos genes associados ao excesso de centrossomas em biópsias de tumores é um procedimento simples e que ajudará a definir melhor o grau de agressividade do tumor e a terapêutica mais adequada", afirma o investigador, sublinhando que, por outro lado, a investigação desenvolvida "dá informação sobre as características das drogas capazes de alvejar células cancerígenas com excesso de centrossomas sem afetar as células saudáveis, o que contribui para acelerar o desenvolvimento de tratamentos específicos".

Numa primeira fase, durante cerca de dois anos, os investigadores pretendem validar no laboratório a eficácia dos fármacos identificados pela abordagem computacional que desenvolveram, como tendo maior potencial terapêutico. Estes estudos envolverão, naturalmente, colaborações com outros especialistas em oncologia clínica e farmacologia. "Os passos seguintes terão como objetivo traduzir os dados da expressão dos genes causadores desta 'impressão digital' em informação de apoio à decisão clínica, estudos com um horizonte temporal mais alargado, de cerca de cinco anos", explica Morais Barbosa.

"Os médicos oncologistas têm falta de tempo para uma dedicação exclusiva à investigação, dadas as exigências tremendas da atividade clínica."

Referindo-se às principais dificuldades encontradas na investigação das doenças oncológicas em Portugal, o investigador aponta a falta de tempo dos médicos oncologistas para a "dedicação exclusiva à investigação, dadas as exigências tremendas da atividade clínica". E nota que, "noutros países, os médicos que fazem investigação têm, na sua agenda semanal, dias inteiros dedicados à atividade científica. Essa escassez de tempo de investigação dos nossos médicos reduz as oportunidades de interação com os colegas que fazem investigação básica, tornando mais lento o processo de levar as descobertas feitas no laboratório até à prática clínica."

Para Morais Barbosa, "outra grande dificuldade é a falta de investimento, tanto financeiro como de formação académica, nas áreas que envolvem genómica e análise de grandes dados moleculares em cancro". Na sua opinião, "estamos na era dos 'big data', em que os dados de genómica e a inteligência artificial se afirmam como ferramentas poderosas, quer na descoberta das bases genéticas do cancro, quer no apoio ao diagnóstico e à decisão clínica". No entanto, em Portugal, projetos de investigação com uma forte componente computacional "são normalmente preteridos pelas agências de financiamento de investigação oncológica, talvez pela dificuldade em juntar painéis de especialistas capazes de os avaliar". Por outro lado, sublinha, "nas nossas universidades, os alunos continuam a ter muito pouco contacto com dados de genómica de cancro, atrasando a formação de investigadores competentes nesta área".

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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