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"Hodgkin, tu não estás convidado!"

Atualizado a 14 agosto 2019

Esta é a sua história.

A vida de Carolina Rodrigues mudou num repente quando recebeu o diagnóstico de um linfoma de Hodgkin (cancro do sistema linfático). Fez tratamentos de quimioterapia, de radioterapia e um auto -transplante. Pelo meio, criou uma página no Instagram sobre a sua relação com o Mr. Hodgkin em que avisa: "Calma Hodgkin, para ti só tenho alguns dias de vez em quando. Nos outros tenho uma vida a acontecer e cenas combinadas e tu não estás convidado!"

Corria o mês de junho de 2017. Um gânglio no pescoço levantou as suspeitas. "Primeiro, pensei que fosse uma infeçãozinha qualquer. Não tinha febre, não tinha nada. Mas ao fim de um mês, como não passava e estava a aumentar cada vez mais, decidi mostrá-lo ao médico reumatologista que me seguia. Ele mandou-me logo fazer várias TACs e comecei a pensar que isto afinal poderia não ser tão simples."

E na realidade não era. As TACs mostraram muitos outros gânglios espalhados pelas zonas do tórax, do mediastino, do abdómen, abaixo do diafragma. "E o médico disse-me logo: 'É um linfoma de Hodgkin, temos de tratar já disto'." Era urgente ir a um hematologista.

"Trabalhando na investigação e na área da saúde, estava já um bocadinho à espera de um diagnóstico assim. Sabia que se fosse uma infeção já devia ter passado e sabia que alguns sinais, como não ter dores, não eram muito bons. Mas é sempre aquela notícia que eu esperava não ouvir", conta Carolina.

Foi o início de um processo difícil mas que a jovem decidiu enfrentar com coragem e determinação.

Por sugestão de alguns amigos, criou uma página no Instagram , onde começou a escrever: "Hodgkin, temos de nos separar!" E em que resume: "Esta é minha história sobre uma relação que começou em Junho de 2017. Foi nesta altura que me foi apresentado o Mr. Hodgkin, alto, espadaúdo que entrou na minha vida tal e qual um cavaleiro andante e sem qualquer aviso. Olhei-o de frente e apesar de todo o seu aspecto imponente, decidi que não queria nada com ele, não faz o meu género de homem, percebem não percebem? Desde então tenho tentado que ele se afaste e aceite o fim desta relação, tentei com uns ciclos de quimio e mais uns de radioterapia, mas ele é teimoso! Insiste que vamos ser felizes os dois. Que tonto que ele é... Decidi tomar medidas drásticas e chamei cavalaria da pesada! Auto-transplante aí vou eu, mas calma Hodgkin, para ti só tenho alguns dias de vez em quando. Nos outros tenho uma vida a acontecer e cenas combinadas e tu não estás convidado. Vemo-nos por aí e mentaliza-te que agora é de vez."

Decisões e Tratamentos

Depois das TACS , foi necessário fazer uma biopsia que confirmou as suspeitas. Era hora de Carolina tomar várias decisões: avançar para a criopreservação dos óvulos para salvaguardar as hipóteses de uma gravidez futura que, em muitos casos, os efeitos da quimioterapia podem comprometer; colocar um cateter sub- cutâneo para poupar as veias das queimaduras da quimioterapia; inscrever-se no Instituto Português de Oncologia (IPO) para ali ser seguida pela equipa de hematologistas.

No dia 12 de julho iniciou o tratamento que se havia de prolongar durante oito meses, de duas em duas semanas. "Olhando para trás e tendo em conta o que diziam as outras pessoas, acho que podia ter sido muito pior. Eu pedia para fazer os tratamentos às quintas-feiras. Quando saía dormia umas 20 horas, dormia muito, muito, muito. Na sexta, não conseguia comer nada, estava muito, muito enjoada, tinha muito sono. Passava o dia sem comer, a descansar no sofá, tentava beber alguma coisa mas também não era muito fácil. No sábado já começava a melhorar e na segunda - feira já ia trabalhar. Trabalhava 15 dias até chegar à quinta-feira do tratamento seguinte. Não tive aquelas náuseas de que as pessoas falam, que se sentem muito mal... não, até foi soft", conta.

Foram oito meses assim, com vários tipos de exames médicos pelo meio. No fim, um novo exame acusou um nódulo na zona do mediastino. Seguiram-se 15 sessões de radioterapia. "Na altura, ficou tudo limpo. Mas eu tinha de fazer outro exame, uma PET (Tomografia por Emissão de Positrões que permite detetar tumores e metástases, através da administração de um radiofármaco como é o caso do 18F-FDG) e só era possível realizá-lo três meses depois, tempo necessário para a radioterapia deixar de estar ativa no organismo). E no início de agosto de 2018 fiz a tal PET que voltou a acusar doença. Foi nessa altura que os médicos decidiram que eu iria fazer um transplante, um auto transplante."

As células de Carolina foram retiradas e congeladas e, após a quimioterapia, reinseridas.

Esses ciclos de quimioterapia realizados de 21 em 21 dias, foram muito agressivos. "Em cada um desses ciclos, eu tinha de ficar internada cinco dias e estava 24 horas a receber quimioterapia. Acabei este tratamento em novembro e em dezembro fiz novamente a PET para confirmar que podíamos prosseguir para transplante Essa PET estava limpinha, estava tudo optimo, eu fiquei super-contente. Comecei a fazer exames mas em Janeiro tive outra recaída."

Os médicos decidiram fazer o transplante imediatamente.

O Transplante

No fim de Janeiro deste ano, Carolina foi internada e fez o transplante no dia 31. "Pensava que era alguma coisa entusiasmante, mas não. Era só um saquinho, tipo uma transfusão de sangue, só que lá dentro estavam as minhas células estaminais", ri.

Mas foi precisamente essa parte, a do transplante, que mais lhe custou. "Estamos num quarto, em isolamento porque antes é preciso fazer uma quimioterapia durante sete dias consecutivos, que acaba com toda a defesa do organismo, com a medula, com tudo, para depois as novas células estaminais poderem instalar-se", explica. "É muito duro, primeiro porque estamos fechados num quartinho que só tem espaço para uma cama, a casa de banho tem aquelas cadeiras que têm uns sacos, temos um lavatório, o banho é com esponja… Depois só entravam no quarto os enfermeiros e além deles, uma pessoa, sempre a mesma, todos os dias, que tem de fazer análises para ver se tem alguma bactéria. No meu caso foi a minha mãe… a minha irmã ficava do lado de fora e a minha mãe do lado de dentro", conta Carolina com a voz embargada. "Custa muito ver as pessoas lá fora A minha irmã sentia-se muito impotente de ver que eu estava doente e não me sentia bem e não me conseguia ajudar. A minha mãe também não podia fazer nada, eu já estava a tomar medicação..."

Depois do transplante, começaram as dores e eram muito fortes os efeitos da quimioterapia. "A segunda semana a seguir ao transplante é muito crítica. São uns quatro ou cinco dias que já sabemos que são assim. Depois as coisas começaram a melhorar aos poucos e os valores de repente começaram a subir, tive sorte só lá estive três semanas, tinham-me dito que nunca seria menos de um mês e meio..."

Carolina já tinha cerca de 500 neutrófilos (as células responsáveis pelas defesas cujo valor normal é entre dois mil e quatro mil). "Uma festa, porque já podia ir tomar banho e sair do quarto, ir à casa de banho tomar um duche. Daí a sair, eram só mais três ou quatro dias..."

Era o dia 13 de fevereiro, quando Carolina regressou a sua casa.

Regresso, viagens e sorrisos

Mas voltar à vida normal demorou mais do que ela estava à espera. "Os efeitos secundários persistiram. Continuamos em casa numa espécie de isolamento, não podemos sair à rua, não podemos ter contacto com animais, com crianças, não podemos ter muitas visitas. E as que recebemos têm de usar máscara, a casa tem de ser toda desinfetada, temos de ter uma casa de banho só para nós que tem de ser lavada depois de usada, não podemos partilhar o quarto com ninguém. Eu partilhava o quarto com a minha irmã e tive de ir para o quarto da minha mãe..." Cuidados necessários para evitar a mínima infeção.

Só em Abril é que Carolina voltou a sair de casa, primeiro para ir ao médico duas vezes por semana e fazer análises, depois para regressar ao trabalho, embora com algumas restrições.

Uma nova PET ainda acusou a doença, "um gangliosito maroto por trás do coração" que a levou a iniciar novo tratamento com anti corpos, de três em três semanas no IPO.

Entretanto, Carolina está empenhada em continuar a trabalhar, fazer o doutoramento e viajar. Em outubro voa para os Estados Unidos. Quer "aproveitar ao máximo as coisas e viver o dia a dia".

A todos os que recebem um diagnóstico de cancro, aconselha a aceitar, a tratar e a lidar com a doença da melhor forma. "Com um sorriso, em vez de desistir de tudo e chorar. Pensar que é mais fácil se vivermos bem-dispostos e adaptarmo-nos a esta nova vida... que não é a mesma coisa, claro que não é… há um antes do cancro e um depois do cancro. Mas não deixar que esta doença nos tire a nossa vida."

Na sua página do Instagram Carolina vai contando a sua experiência, tentando "transmitir uma visão mais relaxada e tranquila desta doença", sobretudo às pessoas "muito tristes" que conheceu no IPO. E insistindo sempre na ideia inicial: "Hodgkin, temos de nos separar!"

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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