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"Encontrei, na fisioterapia oncológica, tudo o que me faz feliz"

Atualizado a 17 junho 2020

"poder ajudar o próximo a superar o sofrimento"

Conceição Rebelo de Andrade é a sétima filha de uma família de treze irmãos. Desde muito cedo soube que tinha que descobrir soluções para resolver, por si própria, os problemas. Enfrentar desafios é um hábito antigo a que está acostumada desde criança. Para esta profissional da fisioterapia, cujos primeiros passos na profissão começaram nos anos oitenta, a oncologia representa, por si só, um desafio constante. “A área oncológica, para mim, é uma das áreas que mais desafia a Medicina e o conhecimento em geral. É das áreas que mais evoluiu nas estratégias a usar para o combate e controlo da doença, desde que comecei a trabalhar houve avanços extraordinários. É, sem dúvida, um desafio permanente”, assegura Conceição.

A fisioteraupeta acredita, ainda, que a ciência encontrará cada vez mais soluções para aumentar a sobrevida e qualidade dos doentes com cancro - doença que caminha, devagar, para uma cronicidade efetiva. “Encontrei, na fisioterapia oncológica, tudo o que me faz feliz: poder ajudar o próximo a superar o sofrimento”, confessa.

Qual é o papel da fisioterapia na vida do doente oncológico?

O papel do fisioterapeuta começa logo no dia em que o doente recebe o diagnóstico. O fisioterapueta, em conjunto com a equipa multidisciplinar, avalia o estado físico e funcional do doente para poder, desde logo, corrigir posturas, prevenir complicações, melhorar as capacidades ventilatórias na fase pré-operatória, potenciar a recuperação, dando conselhos sobre como deverá agir durante todo o percurso que tem pela frente, motivando e desmistificando as consequências da cirurgia e/ou outros tratamentos, alertando para os possíveis contratempos que possam surgir, de forma a que o próprio doente consiga estar atento aos mesmos e contactar a equipa, sempre que necessário.

Ao acompanhar o doente ao longo processo, o fioterapeuta estabelece uma relação privilegiada, que se reflete numa empatia muito próxima que, na maior parte dos casos, leva o doente a “fidelizar-se” e a envolver-se nos tratamentos que lhe vão ser propostos, motivando-o para a reabilitação psicossocial, familiar e o retorno, logo que possível, às suas atividades diárias normais. O papel do fisioterapeuta é crucial ao longo do processo de tratamento e recuperação de um doente oncológico.

Deixo alguns exemplos práticos do papel do fisioterapeuta: As aderências e retrações das cicatrizes, tendo a atenção que devem ser minimizadas quando o doente efectuar radioterapia; ter em atenção as alterações da sensibilidade e neurológicas, ao massajar as áreas envolventes; avaliar possíveis aparecimentos de cordões linfáticos; aliviar a dor, com técnicas de relaxamento; incentivar a ginástica respiratória, durante as alterações desta índole; prevenir e tratar o linfedema - uma sequela comum nas doentes de cancro de mama; relembrar os cuidados a ter com pele; incentivar ao exercício físico, encaminhando ou executando um plano de exercício que promova o alongamento, elasticidade/flexibilidade e aumentando progressivamente o grau de intensidade, carga e frequência; incentivar a correção postural global; motivar e incentivar o retorno às atividades da vida diária.

Existem fases, pelas quais o doente com cancro passa, nas quais a fisioterapia é mais necessária?

Todas as fases pelas quais o doente passa são importantes e, em cada uma delas, o fisioterapeuta tem um papel crucial. Esse papel está relacionado com intervenções que promovem o bem-estar e qualidade de vida do doente. Ao longo dos anos, foram desenvolvidas orientações sobre a prática clínica baseadas na evidência. Havendo escassa literatura sobre a evidência clínica, existem guidelines de prática clínica que dão orientações mais concretas no tratamento pós-operatório e tardio da doença oncológica. Tendo o fisioterapeuta conhecimentos profundos das patologias oncológicas, sabendo as limitações hematológicas por quimioterapia e as complicações que advêm das diferentes abordagens cirúrgicas e da radioterapia, estabelece um plano de tratamento de intervenção.

Quais são as vantagens para um doente oncológico que segue à risca um plano de fisioterapia?

Na fase de tratamento ambulatório, que se prolonga durante os tratamentos de quimioterapia e radioterapia, a fisioterapia tem um papel fundamental. Quanto mais precocemente o doente é orientado para os tratamentos com a sua fisioterapeuta, mais rápida é a sua recuperação. Os doentes que seguem as orientações e aderem ao plano de tratamentos de fisioterapia têm os seguintes ganhos:

  • diminuição o seu tempo de recuperação
  • retoma mais rápida das suas actividades quotidianas - desportivas; ocupacionais e sociais
  • reaquisição da amplitude normal dos movimentos
  • aumento muscular
  • melhoramento da postura
  • melhoramento da coordenação motora
  • aumento da autoestima
  • prevenção de complicações pós-operatórias.

O acompanhamento, na fase de ambulatório pós-tratamentos é longa e recomenda-se que se mantenha, durante os anos seguintes, paralelamente ao follow-up médico do doente.

Quais são os principais desafios para um fisioterapeuta que trabalha na área oncológica?

Considero, como já referi, que a fisioterapia na área oncológica representa um desafio enorme porque a medicina e a ciência estão em constante evolução. Por um lado, com as novas abordagens, quer a nível cirúrgico, quer a nível farmacológico, as técnicas podem ser menos invasivas, esteticamente melhores e menos mutilantes, mas, por outro lado, também podem trazer complicações que não eram tão comuns antigamente.

Por exemplo, os novos fármacos usados na quimioterapia são, claramente, mais eficazes, mas alguns também apresentam efeitos colaterais mais agressivos, que se reflete num impacto significativo na qualidade de vida do doente, com efeitos colaterais mais persistentes, como neuropatias, cansaço, alterações a nível músculo-esquelético, dor ou inchaço. Resumidamente, o fisioterapeuta tem de estar a par das novas terapêuticas, para se atualizar em função dessa evolução, pois é seu dever compreender e avaliar, sistematicamente, o doente. Como dizia Isabel Rasgado, "Temos de fazer uma avaliação diária do nosso doente, se a nossa abordagem não resulta, muda-se, se continua tudo na mesma, muda-se. Se evolui, temos de intensificar e arriscar mais em novas terapias para devolver, o mais rapidamente possível, o doente à sua vida normal".

O que é que os seus doentes já lhe ensinaram?

Ensinaram-me que, os pequenos gestos, a essência das coisas, a constante luta em acreditar é, afinal, a grande arma de combate. Durante todos estes anos atravessaram-se na minha vida crianças, jovens, adultos e idosos. Todos eles transformaram a minha maneira de ver a vida. O pequeno Duarte, por exemplo, que lutava para conseguir andar e ser autónomo com apenas 4 anos, o Diogo, de 10 anos, que me pedia nos momentos mais difíceis para não fazer fisioterapia e pedia para eu aparecer mais tarde, o Artur, com 4 anos, só fazia a quimioterapia ao meu colo, durante anos vinha a correr pelo corredor para me abraçar, hoje é um homem de trabalho e com família.

A Ana, com 22 anos, com cancro da mama, mastectomizada, vivia momentos de tristeza e angústia, mas sempre com a grande esperança de que um dia pudesse ter namorado, o António que na década de 90 teve um sarcoma ósseo e fez uma cirurgia reconstrutiva com prótese total do joelho, conseguiu realizar o seu sonho de se ajoelhar, após um um caminho longo, penoso e resiliente, conseguindo atingir os objetivos. Tantas doentes de cancro da mama que, mesmo com percursos dolorosos e agressivos me deram testemunhos de luta, alegria e combate numa altura que tudo à sua volta se desmoronou. Tantas histórias que ficaram gravadas no meu coração para sempre. Muitos ensinaram-me a resolver problemas, outros ajudaram-me a ser mais disponível, a ser boa ouvinte e a dar o meu tempo, sem me preocupar com o que vinha a seguir.

A confiança que os doentes depositam em nós, enquanto fisioterapeutas, faz com que ao longo do percurso e depois de terem ultrapassado tudo, telefonem para tirar dúvidas, pedir conselhos ou, simplesmente, para contar como a vida corre. Estamos sempre presentes na vida deles.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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