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"É como se tivesse havido um terramoto"

Atualizado a 20 outubro 2020

o impacto da covid-19 na área da oncologia

Há cada vez mais doentes oncológicos a chegar aos hospitais com a doença em estado avançado. O problema agravou-se devido ao adiamento dos rastreios e ao atraso das consultas e diagnósticos.

Os números oficiais revelam a dimensão do problema: este ano, há menos 26 mil mulheres com registo de mamografia e foram feitas menos 100 mil colonoscopias, exame decisivo para prevenir e detetar o cancro do cólon e do reto.

Rui Tato Marinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, não podia ser mais claro ao descrever a situação: “Isto é como se tivesse havido um terramoto, o mundo ficou destruído e agora temos que passar à fase de reconstrução das casas que se calhar é tão importante como sobreviver ao terramoto”.

Até setembro, calcula-se que, ao todo, foram canceladas 96 mil cirurgias e que ficaram por fazer 1,5 milhões de consultas

Em Portugal são diagnosticados quase 60 mil novos casos de cancro todos os anos.

Se for detetada a tempo, a maioria pode ser tratada e os doentes terem uma vida normal. O problema é que, durante estes meses de pandemia, a situação agravou-se de forma significativa. Adiaram-se rastreios e os atrasos verificados nas consultas e nos exames e diagnóstico são assumidos por todas as entidades do setor da saúde.

Calcula-se que, até setembro, tenham sido canceladas 96 mil cirurgias e 1,5 milhões de consultas tenham ficado por fazer.

Ainda segundo os dados oficiais, entre março e maio realizaram-se menos 4.359 cirurgias urgentes e menos 346 mil primeiras consultas em todo o país.

"Agora os problemas mais graves são encontrados nas urgências já num estadio muito mais avançado”.

Ou seja, há doentes que estão nas listas de espera para consultas e exames que têm doenças oncológicas.

Antes da pandemia, muitas patologias eram referenciadas pelos médicos de família nas consultas nos centros de saúde, que encaminhavam os casos para respetivas especialidades.

Com as equipas dos centros de saúde ocupadas com os casos de COVID-19, os atrasos no acompanhamento dos outros doentes estão a aumentar desde o início da pandemia, ou seja, há oito meses.

Como sublinha Luís Costa, Diretor do Serviço de Oncologia do Hospital Santa Maria, em Lisboa, chegam aos hospitais doentes que deveriam ter sido seguidos mais cedo. “Preocupa-nos a forma como alguns desses doentes nos são referenciados, isto é, nós estamos a receber muitos doentes que, provavelmente, poderiam ter tido o diagnóstico do seu cancro em janeiro ou fevereiro ou março, mas que de alguma forma adiaram os exames e que depois, quando chegam para nós os tratarmos, chegam em situações mais evoluídas”.

Vítor Neves, Presidente da Europacolon Portugal, é mais direto: “Agora os problemas mais graves são encontrados nas urgências já num estadio muito mais avançado”.

Os problemas agravaram-se também na realização de exames complementares de diagnóstico.

Muitos dos equipamentos disponíveis passaram a ser usados pelas unidades que acompanham os doentes com Covid. “Estamos a falar, por exemplo, de Tacs para estadiamento, um acesso mais rápido para PETS, até pode ser uma RM para saber se afinal de contas aquela lesão no fígado é ou não é uma metástase porque há dúvidas” – explica o responsável do Serviço de Oncologia do Santa Maria.

Exaustão das equipas e menor produtividade por causa dos protocolos de proteção dos médicos, dos enfermeiros, dos assistentes operacionais e dos próprios doentes

A pandemia aumentou o esforço e os níveis de exaustão das equipas e, ao mesmo tempo, baixou a produtividade nos hospitais.

Os exames demoram agora muito mais tempo por causa dos protocolos que é obrigatório seguir a nível da segurança e de proteção dos médicos, dos enfermeiros, dos assistentes operacionais e dos próprios doentes.

Rui Tato Marinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, refere que hoje as mesmas equipas demoram mais 20 ou 30 cento para executar a mesma tarefa: “Nós temos que vestir aqueles fatos que parecem uns astronautas, com capacetes, os óculos, que dificulta fazer o exame, luvas, botas, o despir e vestir demora imenso tempo. Não conseguimos fazer tanto como se fazia, rapidamente, entra um sai outro...”

Vítor Neves, Presidente da Europacolon Portugal, acrescenta outro problema: a demora nos exames complementares de diagnóstico. “Há hospitais em que as colonoscopias estão a um ano de distância e, portanto, um ano numa doença oncológica é muito mau” - afirma.

Por causa da pandemia, muitas consultas ainda não são presenciais, o quer dificulta os diagnósticos

É por telefone que Maria João Afonso e a sua médica Ana Caldeira, comunicam. Há dois anos que Maria João tem um cancro do pâncreas - um dos cancros digestivos mais mortais. Perante os primeiros sintomas foi à consulta e fez exames, ato que veio a revelar-se crucial no diagnóstico e tratamento da doença.

Se fosse hoje, Ana Caldeira corria sérios riscos de nem sequer ter sido chamada ou de não ser acompanhada como foi.

Estima-se que 250 a 300 cancros do pâncreas tenham ficado por diagnosticar só nos meses de abril, maio e junho.

Ana Caldeira, Gastrenterologista no Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco, dá o exemplo de Maria João para lembrar os outros doentes que não têm tido a mesma sorte: “Nós estamos ainda a fazer muitas consultas por telefone. Em abril, maio, junho, praticamente não fazíamos consultas ou eram todas mesmo por telefone. A Maria João teve a sorte de ser vista em março do ano passado, porque se fosse em março deste ano, provavelmente o diagnóstico ainda não tinha sido feito e já lá vão mais seis meses. Quantas Marias Joãos não haverá este ano?”.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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