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As duas vidas de Susana Costa

Atualizado a 18 fevereiro 2020

"Nunca pensei que iria ter cancro. Mas aceitei."

Susana Costa só tinha 36 anos. Estava numa cama do Hospital de S. João, no Porto, com dores atrozes, sem poder andar. Ela ficou em silêncio a recuperar do choque. Depois perguntou:

  • Tem tratamento?
  • Claro que sim – disse o médico.
  • Então comece o mais depressa possível – pediu.

No dia seguinte iniciou a quimioterapia.

Isto foi numa outra vida de Susana, antes de ser transplantada e quando tinha menos 40 quilos. Depois das dores, da astenia, das lágrimas, do medo de morrer ela sente-se hoje, dez anos depois, “como se nada se tivesse passado.” E sorri, vitoriosa, num dos corredores da Assembleia da República, onde é assistente parlamentar.

O cabelo não voltou a crescer (agora usa peruca) mas deixou de fumar e diz ter “muito mais qualidade de vida.” Já não anda a correr de um lado para outro nem, esgotada, a trabalhar horas intermináveis. Tornou-se “muito mais seletiva” em relação às amizades e, com o tempo, transformou-se numa “mulher muito mais livre”, diz.

A doença revelou-se, um dia, de surpresa. Susana não tinha casos de doenças oncológicas na família. “Nunca pensei que iria ter cancro. Mas aceitei”, conta, convencida de que isso foi a condição para ter conseguido vencer.

Tudo começou com um nódulo na virilha e com dores que se alastraram pela coluna. Depois, veio a dificuldade de andar. As análises e um mielograma (exame para avaliar patologias da medula óssea) confirmaram o diagnóstico de um linfoma de burkkit.

Susana foi internada no Hospital de S. João, no Porto, durante seis meses, onde fez quimioterapia. Regressou a casa “limpa”, mas meio ano depois, o tumor voltou.

Desta vez, além de quimioterapia fez também radioterapia. E comunicaram-lhe que teria de fazer um transplante. Chamaram a família mais próxima. O seu único irmão, dois anos mais novo, demonstrou “grande compatibilidade”. Foi uma alegria. “Chorei agarrada ao médico”, conta.

Foram três meses em isolamento total no IPO do Porto. “Durante o dia mostrava-me calma, via muita televisão, estava no meu canto, não queria que me chateassem. Mas à noite chorava muito e falava com Deus, pedia-lhe para não morrer.”

O apoio dos médicos e enfermeiros, da família e dos amigos foi essencial para manter a confiança, afirma. “Falar da doença, partilhar o que sentia também foi muito importante.”

O transplante “pegou” e Susana nasceu para uma nova vida.

Depois de três anos de baixa regressou ao Parlamento. “Só tenho de fazer vigilância de seis em seis meses. Está tudo ótimo”. E tudo nela sorri.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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