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“Amo ser enfermeira em oncologia. É a minha segunda casa.”

Atualizado a 22 agosto 2019

“o mais duro é a impotência e frustração”

Quando o dia é mais difícil emocionalmente no Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO) onde trabalha, ela usa uma estratégia: Não vai direta para casa. Atrasa-se a caminhar, a passear, às vezes, a ver o mar.

É uma forma de acalmar o stress e a ansiedade dos dias mais complicados no hospital antes de regressar a casa e à vida familiar. Mesmo assim, é inevitável deixar-se perturbar pelo peso de algumas situações relacionadas com os doentes que interferem “muitas vezes na vida pessoal, até porque lá em casa somos dois a trabalhar em oncologia e na mesma instituição. Não há como não perturbar”, diz.

Mais de metade da vida de Maria de Lurdes Freitas Carvalho, de 54 anos, foi dedicada à enfermagem e, exclusivamente, à oncologia.

Foi quando fez o estágio de Medicina e cirurgia no IPO Porto, no último ano da licenciatura, que descobriu o que verdadeiramente queria. “Tive a certeza da profissão que tinha escolhido e onde gostaria de trabalhar. A cultura e clima organizacional desta instituição foi fundamental, assim como a qualidade dos cuidados prestados não só no domínio técnico mas na relação de ajuda com os doentes e cuidadores.”

O mais gratificante na enfermagem oncológica – considera – “é o constante desafio com que nos confrontamos na prestação de cuidados de enfermagem diferenciados à pessoa/família ao longo do seu percurso de tratamento.” Explica: “Ajudar o doente a enfrentar um diagnóstico de cancro tão estigmatizante e ensinar estratégias de lidar com esta nova situação de forma a incutir esperança e adesão a tratamentos oncológicos múltiplos e com efeitos adversos severos, é das intervenções mais gratificantes e complexas na nossa profissão.

O desafio de proporcionar qualidade de vida

Hoje, face à evolução do cancro para uma doença crónica e ao número, cada vez maior, de sobreviventes graças a novos fármacos, técnicas e terapias, “o desafio está em proporcionar qualidade de vida que passa pela readaptação funcional, familiar e social. Quando conseguido o sentimento é de dever cumprido. Por outro lado, nas situações mais graves e de cuidados paliativos, o gratificante é conseguir diminuir o sofrimento físico através do controlo da dor e outros sintomas, assim como o sofrimento espiritual, nunca esquecendo a família”, afirma a enfermeira Maria de Lurdes.

No seu dia a dia, “o mais duro é a impotência e frustração” face a diversas situações: “Sentirmo-nos vencidos pela doença que não se conseguiu controlar; pelos doentes e em especial as crianças e jovens que nos chegam em estádios avançados e o que temos para oferecer são tratamentos paliativos. Porque não conseguimos que desde o diagnóstico ao tratamento, o percurso seja mais rápido. Não conseguir o controlo de sintomas físicos e psicológicos. Morte inesperada. Morte sem dignidade.”

Foi um caminho que foi fazendo ao longo do seu percurso profissional, “um caminho difícil de aceitação e de reações violentas perante a perda de um doente.” Maria de Lurdes Carvalho nota que os doentes oncológicos, pela necessidade de passarem muito tempo no IPO, seja no internamento ou no ambulatório, passam a fazer parte da vida de quem lá trabalha. “Quase como se fossem da nossa família ou do grupo dos nossos amigos. Por isso, quando perdemos um deles, apesar de ser esperado face à sua situação clínica, o luto é difícil”, diz, sublinhando, no entanto que espera que “nunca deixe de o ser, porque isso significaria que já não me importo e se é assim, então devo deixar de ser enfermeira.”

Humildade, gratidão, resiliência

Ao longo de 32 anos de exercício da profissão, Maria de Lurdes Carvalho não consegue destacar um caso que mais a tenha marcado positiva e negativamente. “São muitas, faz parte do meu dia a dia, mas posso afirmar que as situações negativas são sempre aquelas em que tenho consciência que poderíamos ter feito muito mais.”

As experiências mais difíceis nunca a levaram, porém, a querer mudar de área. “Só quando estou zangada mas nunca de coração. Amo ser enfermeira em oncologia. É a minha segunda casa”.

E mesmo no que respeita à constante relação de proximidade com a morte, Maria de Lurdes diz que “hoje aos 54 anos, 32 de IPO, se a proximidade da morte for um processo inevitável, tranquilo, sem sofrimento e com tempo para a aceitação do doente e família, acho que a minha adaptação é mais saudável. Aceitação, bem -estar e gratidão.”

O que mais tem aprendido com o contacto com os doentes oncológicos? “Humildade perante os HERÓIS, que são os nossos doentes. Superação. Gratidão pela minha profissão em que com os meus skills posso contribuir na equipa de saúde, na gestão complexa desta doença e das emoções dos nossos doentes. Resiliência e que Esperança é um conceito muito amplo, como por exemplo apenas “estar sem dor” em fase paliativa ou” conseguir alimentar-se pela boca” após uma cirurgia invasiva ou uma mucosite grave durante tratamentos de quimioterapia. “Pequenas grandes coisas” de toda uma vida dedicada aos doentes com cancro.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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