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A vida suspensa por uma enorme interrogação

Atualizado a 31 março 2020

prevenção e diagnóstico precoce são essenciais

Há uma campanha internacional que convoca mulheres para estarem atentas aos sinais do cancro da mama. Chama-se “Feel it on the First” e tem como objetivo estimular hábitos preventivos na deteção da doença, através de exames simples e regulares feitos em casa, como a apalpação do seio. Se a prevenção é fundamental, o diagnóstico precoce é o primeiro passo para o tratamento eficaz.

Carla Fonseca não estava em idade de risco quando encontrou vários nódulos, durante a amamentação do primeiro filho. Foi sinalizada para começar a fazer exames regulares. “Se tivesse esperado pelos 40 [para fazer uma mamografia], teria sido bem diferente”, diz. As queixas dos nódulos surgidos durante a amamentação - sempre identificados como benignos - levaram-na a fazer uma mamografia, já depois do nascimento do segundo filho. “À medida que desapareciam uns, apareciam outros”, recorda.

Otimista irredutível, percebeu que algo não estava bem quando, durante o exame, a médica ficou em silêncio e decidiu chamar uma colega. Em menos de um mês dava entrada no hospital para fazer uma quadrantectomia, cirurgia de remoção parcial do seio onde está localizado o tumor. Removido o nódulo maligno, que implicou o esvaziamento axilar, aguardou um mês pelo resultado da análise à peça extraída, e voltou ao trabalho como técnica de uma empresa ligada ao ramo farmacêutico. Com 39 anos, sem pertencer a qualquer grupo de risco, casada, com dois filhos e um emprego estável, tinha a vida suspensa por uma enorme interrogação.

Foi várias vezes ao hospital tentar saber resultados. Aliás, em todo o seu processo, que se arrasta há já oito anos - com cinco cirurgias, várias sessões de quimioterapia, radioterapia e tratamento hormonal -, a diligência e busca de informações foi decisiva: “Tudo por minha insistência em ser seguida. Tive vários médicos a garantirem-me que estava tudo, até os exames os desmentirem. Não é falta de profissionalismo, são situações silenciosas, sem queixas, que saem do padrão.”

Carla teve de fazer quimioterapia preventiva após a primeira cirurgia. Em casa, o filho mais novo só começou a perceber a gravidade da situação quando a mãe os avisou que iria perder o cabelo. O mais velho compreendeu a situação, o mais novo pediu à mãe para usar peruca. “Não estava nos meus planos, mas acabei por usar. Durante um mês não se apercebeu que aquele já não era o meu cabelo”, recorda esta mulher para quem o calvário parece longe do fim: depois do primeiro diagnóstico, em 2013, cinco cirurgias de reconstrução, uma operação à tiroide, a doença voltou em 2017 - tratada com radioterapia - e novamente em 2019, na outra mama. Aguarda tratamento com radioterapia.

Prevenir

Ana Cardoso, 46 anos, não chegou a ficar sem cabelo, mas perdeu o negócio em que tinha investido todas as poupanças. Em três anos a vida mudou radicalmente: está reformada por incapacidade, a braços com uma luta que será para toda a vida. Tem um cancro de grau quatro metastizado nos ossos. “Lembro-me do dia em que descobri um pequeno caroço. Estava no supermercado, na zona dos frescos”, conta. Ana seguia uma comportamento exemplar no que respeita à prevenção: tinha feito uma mamografia três meses antes, fazia apalpação regular e há muito que se tornara cuidadosa com a alimentação e saúde.

Tal como Carla, Ana Cardoso sabe de cor os 12 sintomas para detetar o cancro da mama, e não se cansa de apelar a outras mulheres que façam exames regulares em casa. Mas a prevenção, no seu caso, não lhe aliviou a bateria de exames, nem os resultados: um primeiro diagnóstico apontava para cancro da mama, e a TAC levou o médico a perguntar se tinha tido alguma queda que justificasse uma mancha na coluna. “Perguntei quanto tempo tinha de vida. Não me lembro de muito mais”.

Vieram os tratamentos: radioterapia, quimioterapia oral, hormonoterapia, morfina para atenuar a dor. “As metástases na coluna causam dores horríveis e impedem-me de trabalhar”, conta, apesar de conseguir encarar a doença com otimismo. “Tem sido uma luta diária mas também uma aprendizagem, o que pensava ser uma sentença passou a ser uma lição de vida, transmitir a outras pessoas que podemos viver com esta doença. Acima de tudo que é possível reduzir a possibilidade de vir a ter um diagnóstico destes.”

Jorge Dias, 57 anos, teve a “certeza” de que estava doente quando viu sangue na casa de banho, numa manhã antes de sair para o trabalho. Marcou consulta de urgência para esse mesmo dia e menos de uma semana depois estava a fazer uma colonoscopia que revelou o pior cenário: cancro no intestino. “O que me assustou mais foi a ideia dos efeitos secundários, porque convivi de perto com casos de cancro, sei o que custa”, expressa. Não se livrou da quimioterapia, que fazia em ciclos semanais, ao longo de mais de 20 sessões, nem da radioterapia. E confirmou os receios iniciais: o tratamento agressivo resultou na perda do cabelo, magreza extrema e depressão profunda: “É a tristeza e frustração perante uma tratamento que nos pode salvar a vida, mas que ao mesmo tempo nos parece ir tirando todos os dias um bocadinho.”

A história de Jorge teve um final feliz. Mantém-se nas consultas e é vigiado de perto pelos médicos, mas a doença parece estar controlada. Ana continua a sua luta: há três anos que faz quimioterapia com ciclos de 23 dias, todos os meses, mas recusa fazer parte da estatística e prognósticos mais negativos do cancro da mama. Carla está a começar mais uma batalha. Uma coisa é certa: o cancro vai continuar a afetar parte da população — as estatísticas apontam para o risco de afetar um quarto. Mas até 50% dos casos poderão ser prevenidos.

Prevenção na primeira pessoa

1. Carla Fonseca, 45 anos
“É importante estar muito alerta, fazer todas as perguntas aos médicos, estar totalmente informado. E fazer prevenção sem esperar pelos 40. Não adiar. O meu primeiro exame fiz um ano antes do recomendado. Fez muita diferença.”

2. Ana Cardoso, 46 anos
“O cancro muda todas as regras. A minha vida foi revista em função da doença a todos os níveis. Conseguir manter um espírito otimista e positivo, criar alguns objetivos, é fundamental para estar emocionalmente estável.”

3. Jorge Dias, 57 anos
“Durante três anos da minha vida vivi exclusivamente para a doença. Deixei de trabalhar, sair, socializar, para lidar com um problema de saúde. Não tem de ser assim, a depressão só agrava o nosso mal-estar. É preciso encarar, lutar e acreditar numa cura. E andar muito atento aos sinais que o corpo nos dá para que o diagnóstico seja o mais precoce possível.”

Guia prático para identificar sintomas do cancro

Mama
Deve ser consultado um médico em caso de aparecimento de nódulos, alterações no tamanho, formato e pele da mama (gretada ou descamativa) e perda de líquido no mamilo.

Cabeça e pescoço
Estes tumores são frequentes e o diagnóstico é muitas vezes tardio. Sintomas: alterações na voz, sangue na saliva, dor persistente ao engolir, caroço no pescoço.

Pulmão
Os sintomas do cancro do pulmão não são exclusivos desta doença. Consulte um médico caso tenha tosse com sangue, falta de ar, dor torácica e pneumonias difíceis de curar.

Fígado
Estes sintomas não são também exclusivos do cancro do fígado. Alertas: dor na omoplata direita ou desconforto no lado direito do abdómen superior, icterícia, náuseas, perda de peso.

Rim
Representa 1,8% dos tumores malignos diagnosticados no país. Sintomas: sangue ao urinar, surgimento de uma massa na região lombar, anemia, perda de apetite e de peso.

Tenho Cancro. E depois? é um projeto editorial da SIC Notícias com o apoio da Médis.

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